23 de maio de 2018

Luto Quixote contra moinhos?




Luto, Quixote, contra moinhos?
Quem são os moinhos que me enfrentam?
Gigantes, algo assim, parecidos…
São ventos de longe que avançam.

Luto com esperança Dulcineia
Não ficarei senão pela vitória
A força rebenta-me a veia…
Dos fracos não reza a história.

Que bela esta história, engraçada…
Bonita até, pobre louco…
Se de verdade, no entanto for chorada,
Então muda tudo um pouco.

Quem sabemos que vive assim?
Quem e quantos somos nós?
Na verdade não sei se para mim,
Não parece estarmos sós…

Sancho que me ajudas,
Gritas moinhos e rogas a Deus,
Não vês tu que ou estás e mudas
Ou não tenho gigantes meus?

Comigo contra eles avança!
Vamos fiel amigo!
Olha-os e vem Sancho Pança,
Vem morrer comigo…

Amada Dulcineia, minha história,
Tenho-te a honra, tenho vergonha
Levo-te vento, levo-te a glória,
Não te tenho, sou o que sonha…


Mário L. Soares
D. Quixote, desenho de Júlio Pomar

31 de março de 2016

Meu Deus, me dê a coragem

Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar.

Clarice Lispector

26 de maio de 2010

Em que idioma te direi

Em que idioma te direi
este amor sem nome
que é servo e rei?

Como o direi?
Como o calarei?

É como se a noite se molhasse
repentinamente, quando choras.
É como se o dia se demorasse,
quando te espero e tu te demoras.

Albano Martins

3 de abril de 2010

Nas Origens

Porque me dás os dias mais limpos e és cúmplice dos meus crimes. Porque reinas nas minhas noites e travas comigo as batalhas que me acordam. Porque não temes os ferimentos de uma guerra absurda – e te enfurece aquilo para que antes nem nome tinhas. Porque não cedes aos atavios nem à vaidade da tua grandeza inesperada, sempre inesperada. Porque sabes que nada é seguro e, ainda assim, caminhas vertical. Porque, quando as batalhas da vida te enfraquecem, escasseia o Sol. Porque assim me levas e te deixas levar para onde nada está concluído e impera o incerto. Porque, se um dia me faltares, não terei precavido o susto.

Goldmundo, no seu Diário

20 de janeiro de 2010

(sem título)

Só tu
sabes sorrir
na vertical

Lótus



Não te esqueças de proteger os ouvidos. Porque
algumas horas depois o som de uma pétala
ao cair no chão era capaz de te
rebentar os tímpanos.
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Jorge de Sousa Braga

O guarda-rios


É tão difícil guardar um rio
quando ele corre
dentro de nós.
.
Jorge de Sousa Braga
.